sexta-feira, 18 de abril de 2014

Ponte

Não é menos que medo
nem excede o ódio.
É o imperfeito
sem misericórdia;
é o amor de meu peito -
é o desejo que se cura.
Não é muito além da ternura
(tampouco seria se fosse real).

Com o agridoce de uma carícia,
sem despeito - com malícia! -
o encontro dos olhares se destrói
e corrói a visão dos amados.
E dói
compensando a si mesmo com um beijo rasgado.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Sistemática

Enquanto os olhos se dissolvem
fáceis
pelos rostos e diversas
faces,
essas pompas são, de todo,
inúteis
e as rondas por tais almas,
fúteis.

Quando as penas se retêm ingratas
(pelo voo e pelas cem aventuras),
quer-se depenar: errado.
Pois aquelas penas conhecem a ave que por tantos cantos as levou.

Então,
o perdão é uma desculpa inútil -
perdoe o trocadilho -
quando não quer-se mudar
de fato.
Mais que ingratos, os olhares e penas
(uma pena!)
são ilusões (talvez mentiras)
de desejos de voar e possuir.

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Psiconsulta

Olha, doutor, há muito que se instala
No meu interior uma maldita
Ânsia mortal que, turbulenta, grita
Na mudez de um silêncio que não cala

Me diz, doutor, vai, por favor, me fala
De onde ela vem, se vai ser infinita
Ou se ela pode ao menos ser bonita
Se eu encontrar um jeito de expressá-la

Ah não, doutor, você não compreende
A sua ciência abstrusa, ciência fria
Até pode entender o que há comigo

Mas, se eu chorasse agora, na sua frente
Como a criança o faz (e eu nem consigo)
Nenhum discurso seu me ajudaria

terça-feira, 15 de abril de 2014

Macuneã e os Caminhos

Nos dias de sol, Macuneã olhava o azul do céu como quem namora as nuvens. “Todos formatos”, pensava, “esses corpos adotam – será que posso ser o que eu quiser?”.
E não tinha nuvens em seu corpo, nem espírito nem nada. “Então, o que posso mudar?”, indagava.
Eis que Macuneã decidiu moldar sua mente. Plantar sementes em sua própria consciência para ser, sem pressa, aquilo que sempre quis e iria querer (mesmo sem saber o que era).
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E caminhava, em dias chuvosos, como quem admira o natural. “As nuvens são arrastadas pelo vento e pelo tempo – será que a vida moldará minhas nuvens?”, era a curiosidade.
Então deixou sua vida seguir seu rumo, sendo plateia de suas próprias conquistas. Percebeu aquele como um caminho passivo, e Macuneã não queria ser disso.
Pois foi um dia que Macuneã enfim percebeu: “Não sou nuvem, não sou alma, não sou vento e não sou tempo. Então o que sou? Sou gente.”. E dançou conforme a música (quando não lhe apetecia o tom, colocava aquele disco favorito e mudava sua dança).

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Aquela

Se coça a mão
ao tapa ou à escrita
coça a mão ou descreve o tapa?
Descreve a cena?
Escreve um mapa?
Se faz problema?

Se irrompe ao ser
querer o mais imperfeito poder,
é de causa sacra e profana:
não é o humano seu próprio deus
nem é seu deus um bom humano.

Quando rompe a película
a pressão é demais: estouram
os vasos de sangue e hipocrisia,
vazios de paixão -
mas de vitórias? Demasia.

E é heresia se contradizer
pois a suprema palavra própria é poder.
É poder ser deus e humano,
bater na tecla e escrever o tapa.
Mas é mesmo humano quem no sapiens acredita?
Mais ser um ledo engano
como quando ela não te fita (aquela).

terça-feira, 8 de abril de 2014

Ego

A desgraça do mundo do Ato
é a máscara que cobre
o autorretrato retrátil.

Sem pátio, a mente distorce
sua própria vida para ser destoante;
torce os pulsos de amantes.

Pulsantes amarras se conjugam
para libertar o escravo da vida.
Comungam a sorte.

Resmungam à morte eterna
tais vidas etéreas e instantâneas
no Inferno terreno de Dante.

E é plena a constatação dissonante:
"Se vicia-se em ser personagem
num instante vira ator de si mesmo."

É o tapa que pensa ou a mente que dói?

Córnea.

páginas de tantos livros que nunca lerei
se amarelando na estante com medo do outono
e suas folhas marrons obedecem a lei
de ventanias e abismos e poemas sem dono

desenho em meu pulso com aquela cor de anil
safira líquida que se opaca em minhas teias
liquida teu nome na pele e começa o abril
e tua marca em mim se disfarça de veias

desavença essa entre pele e caneta
que falha em refletir o que carrego
o sangue e a tinta não ficam violeta
e essa aquarela insolúvel me faz cego

mas as pétalas caem por uma razão
os galhos pelados trazem o inverno
seus olhos secos pedem a união
de cores frias na paleta do eterno

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Diáspora Mental

No caminho que vicia, a palavra
ilumina estradas tortas absortas em si mesmas.
A Palavra (esta morta) está rouca
de gritar sem escutar os urros dos sofredores de suas promessas.
Um caos coordenado por intelectos
brilhantes e de pulso firme mantém a ordem maquiada de progresso -
enquanto a peste é pesticida;
a paixão é iludida;
os sonhos são vistos por cima, como quem sonha em sonhar algo bom.

E o algo bom se vicia
na reputação da amizade, no poder do generoso.
No roubado do maldoso.

Elegias que são,
os sem energia e sem emoção não descobrem o que há por fora.
Por pouco não choram.
Por pouco não amam.
Por pouco não pensam.
Por pouco não fazem.

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Meta II

Enquanto as palavras chegam a mim
Me vejo obrigado a logo livrar-me
Das ideias que correspondem, assim,
Aos versos, daqui, uniforme.
De base, romance e nanquim,
Formam uma prosa califorme.
As letras ordenam-se, enfim -
Sonhando enquanto ninguém dorme.

Conhecimento, disputas e teses
Cercam-me o ser com sua ambiguidade
(Alguns excertos valendo menos que fezes!,
Mas cá se encontram por portarem idade).

E, absorto, permeio de histórias,
De vãos pensamentos e fúteis memórias -
Com artifícios duvidáveis e humanos
(sinônimos que são) -
Os papeis desses insacros planos;
esse futuro sem passado ou emoção.

terça-feira, 1 de abril de 2014

Projeção Insegura

Qual sua cor favorita?
Você tem um melhor amigo?
Quais são seus sonhos e metas?
É pra fora ou pra dentro teu umbigo?
Quer ir morar comigo?
Quer dormir fora de casa?

Gosta de quê nas meninas?
Gosta de quê nas pessoas?
Já viu um arco-íris? É lindo!
O que acha do cenário político?
No que acredita, em nada?
Não há nada, pra você, místico?
Gosta de que tipo de livros?

De onde você veio, é longe?
Era bom?
Era melhor?
Acredita em tudo que dizem?
Você se arrepende de alguma coisa?
Você compreende o cenário completo?
Você me entende?