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sexta-feira, 16 de maio de 2014

Janêo e os Seres

Janêo acordou com cheiro de sonhos... estaria a padaria abrindo ou o odor era uma simples manifestação de um ide reprimido que se rebelara contra a própria realidade, formando então encarnações oníricas ao vivo e de repente - sem sequer perguntar para Janêo?
Janêo não sabia responder essa pergunta.
Mas sabia que já havia passado seu horário de acordar, então tomou aquele banho e se despediu dos pais que ele há muito abandonara e que não estavam lá.
Nu, correu atrás de seu ônibus e percebeu gostar do ritmo que se impusera às suas pernas. Decidiu: "a partir de hoje eu só vou correndo".
E correu. Muito.
Eis que um dia, com pés de sola negra e castigados pelos dois sóis que não cessavam seu brilho, Janêo viu-se cansado e tentou voar - mas não era aquele tipo de sonho. "Bem, acontece", pensou.
Viu caindo um vaso de petúnias, na direção de seu rosto. Pensou "Ah, não, outra vez!", mas era tarde demais para intertextualidades (e metalinguística). O sonho o matou.

Desperto de fato, tomou banho em um apartamento vazio e embarcou em um ônibus quebrado, comprado por uma companhia corrupta de uma cidade mais cinza que o céu dentro de seus sonhos.

domingo, 4 de maio de 2014

Resumo sucinto sobre toda a vida de um estranho

Um homem estranho acabara de entrar no cômodo. Não que fosse de estranheza extravagante: na verdade, eram pequenas coisas únicas que o caracterizavam a estranheza, e era preciso conhecê-lo para dizê-lo, factualmente, estranho.
Mas, coitado, ninguém o conhecia!
Sua morte foi indolor.

terça-feira, 15 de abril de 2014

Macuneã e os Caminhos

Nos dias de sol, Macuneã olhava o azul do céu como quem namora as nuvens. “Todos formatos”, pensava, “esses corpos adotam – será que posso ser o que eu quiser?”.
E não tinha nuvens em seu corpo, nem espírito nem nada. “Então, o que posso mudar?”, indagava.
Eis que Macuneã decidiu moldar sua mente. Plantar sementes em sua própria consciência para ser, sem pressa, aquilo que sempre quis e iria querer (mesmo sem saber o que era).
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E caminhava, em dias chuvosos, como quem admira o natural. “As nuvens são arrastadas pelo vento e pelo tempo – será que a vida moldará minhas nuvens?”, era a curiosidade.
Então deixou sua vida seguir seu rumo, sendo plateia de suas próprias conquistas. Percebeu aquele como um caminho passivo, e Macuneã não queria ser disso.
Pois foi um dia que Macuneã enfim percebeu: “Não sou nuvem, não sou alma, não sou vento e não sou tempo. Então o que sou? Sou gente.”. E dançou conforme a música (quando não lhe apetecia o tom, colocava aquele disco favorito e mudava sua dança).

quarta-feira, 12 de março de 2014

Sacerdotismo


 Korine acordou com a fria brisa do ar que gelava suas entranhas e fazia as persianas de seu quarto rebelarem-se contra a própria parede de pedra que as continha.
Desperto, acendeu a lamparina de óleo à cabeceira de sua cama, uma construção de madeira reforçada com colchão e almofadas de pena de ganso, e se levantou ao negro da madrugada que lhe inquietara com suas canções geladas.
Abrindo a porta de madeira que separava seu quarto do santuário, Korine se pôs a pensar se deveria realmente visitar a câmara de seu Deus ou se era melhor que voltasse ao seu sonho, aquele pedaço de desejos manifestados em imagens, único espaço (mesmo que irreal, sabia) onde podia constituir uma família.
Mas não era inocente. Sabia suas responsabilidades. Era o último Sacerdote, último servente de Rhoros, a Vida, e era seu dever dedicar cada segundo a Ele. Ser acordado no meio da noite na verdade fora uma benção, mesmo sendo estranho seu sono profundo conseguir finalmente ser perturbado, pois poderia dedicar mais tempo ao Trabalho.
Desceu a escadaria circular de mármore que levava ao Altar Central, ponderando sobre os reais motivos do seu despertar, pois lembrava-se que, da última vez em que fora acordado, Rhoros tinha de lhe compartilhar um recado extremamente importante. Com isso em mente, apressou o passo e a descida, ansioso, e chegou onde queria, contemplando a grandiosidade extrema daqueles construtos.
O Altar Central era retesado por um gigante salão, uma extensa planície de mármore, marfim e pedra, com bancos de madeira distribuídos simetricamente e uma camada de pó que não era limpa já havia meses, encobrindo o tapete esmeralda com detalhes em dourado que levava ao Altar, de fato, que por sua vez impedia a passagem ao Grande Poço.
O Poço era um gigante buraco que, diziam as lendas, era infinito, e que guardava em suas profundezas o próprio Rhoros, ou assim ouvira dizer Korine, que pôs-se a observar de fato a construção que retesava seu real objetivo ali.
De fato, somente um Deus (ou uma centena de escravos) poderia ter conjugado aquela união de beleza, realismo e realeza que permeava o Altar Central.
Estátuas de diversas manifestações da Vida, esculpidas em bronze e pintadas em ouro e prata, cercavam a estante de livros sagrados e o pódio, onde antigamente os Sacerdotes falavam suas preces, bênçãos e sermões para uma miríade de pessoas, ou pelo menos assim ouvira dizer Korine.
Uma orquídea esculpida se encontrava no topo de um tronco de mármore, e Korine retirou uma de suas pétalas, conectadas à flor dourada por um fio de prata, um mecanismo antigo, porém sofisticado e útil, que revelava as escadas a caminho da Câmara Sagrada.
Erguendo o alçapão revelado embaixo do tronco que suportava a orquídea, uma vez mais descia aqueles degraus, para realizar seu Trabalho. Korine agora se colocaria à disposição de Rhoros, com corpo e mente, para que seu Deus pudesse obter todo o impulso e dedicação necessários para sua preservação e eternidade.

domingo, 29 de setembro de 2013

Café

Pego o telefone com a maior velocidade possível. Eu penso "Atende! Atende!". Toca duas vezes. Três. Quatro.
-Alô?
Ufa!
-Alô? Quem é?
Ela me atendeu!
-Eu vou desligar!
Antes que sua voz doce fosse embora pra sempre, eu respondo:
-O-oi! É da casa da Alice?
-Quem gostaria?
-Jonas!
-Jonas? Que Jonas?
Ela não se lembra de mim? Será que devo desligar?
Antes que meu pensamento tenha chance de chegar à língua, eu digo:
-Eu sonhei com você essa noite.
-Quê? Como assim? Eu vou ter que chamar a polícia?
-Não, não! Sou eu, o Jonas! De ontem, no Starbucks! Derrubei café em você! - agora ela deveria se lembrar
-Ah! Claro.
O telefone fica mudo por segundos, mas parecem horas.
-Sonhou o quê comigo? Foi sacanagem?
-Não lembro. Improvável que tenha sido.
-Mas então como sabe que sonhou?
-Não sei. Só sei que sonhei.
-Foi sacanagem.
-Eu não lembro!
-Vamos no Starbucks um dia desses? - O que estava acontecendo?
-Quarta, no almoço?
-Quarta, no almoço.

sábado, 20 de julho de 2013

Despertar

Estava escuro e as estrelas brilhavam no céu, como lantejoulas no papel. O vento bagunçava seus cabelos. Realmente ventava muito em regiões montanhosas. Como seu pai costumava dizer antes de partir, como uma brisa. Não havia som. Não haviam distrações. Apenas o assovio em seu ouvido. Um assovio que a chamava, a seduzia, a tentava. Estremeceu. Ele a seduzia. Abusava de sua inocência e ignorância. Ela nem sequer sabia o que estava fazendo. Era tão nova. Ele dizia que era amor. Calor. Ela sentia muito calor. Realmente ventava muito ali. Ela respirou fundo e abriu os braços. Como fazia quando era criança, na chuva. Abraçava o mundo com um simples gesto. Era tão fácil quando não era obrigada. Quando as coisas eram mais simples. As pessoas costumavam fazer as coisas que gostavam. Bastava abrir os braços e abraçar. Abraçar o mundo, abraçar a vida. Sem pressões. Viver era a coisa mais fácil do mundo. Mas ela vivia atrasada. No mundo da lua. Gostaria de ir à Lua. Mas diziam que ela ficava no infinito. Um infinito bem grande. Do tamanho do amor que juraram à ela. Talvez o infinito não fosse assim tão grande. Fechou os olhos. Tudo sumiu. O breu dominou sua visão, assim como havia dominado seu coração. Lembrou das lantejoulas e quis vê-las de novo. “Só mais um pouquinho!". “Olha o que eu fiz pra você, mamãe!". Quem havia desenhado aquele céu para ela? Talvez seu pai. Ele estava tão longe agora. Quem sabe não estava no infinito? Suspirou. Se sentia bem ali. Longe da vida cujo sentido não entendia. Longe de quem havia transformado seu coração num vazio oco. Como sua mãe havia feito há bastante tempo. Mas estava longe do tempo ali. Estava mais próxima de quem queria ser. Lhe disseram que é preciso seguir seus sonhos. Não importasse o que. Ela deu um passo à frente. Queria acordar. Avançou de novo. Fechou os olhos. Realmente ventava muito. 

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Bom dia!

Eu procuro o objeto cortante mais próximo... um alfinete! Sim!
Pego o alfinete e furo meu dedo indicador. Não sinto nada.
Preciso, preciso de algo mais forte... Preciso de uma faca! Logo após eu pensar nela, como num passe de mágica, aparece uma faca em uma mesa de cabeceira que eu não lembrava de possuir no meu quarto. Era, era meu quarto, certo?
Não importava. Pego a faca e, ah, como eu lembro da sensação. A sensação de não sentir nada. Corto meu dedo pra fora, e não sinto nada! Não tenho mais anelar nem mindinho, mas nem sangrar eu sangro. O que está acontecendo comigo?